Cartografias afetivas e mapas sobrepostos: notas sobre a poesia de Marília Garcia

Rosicley Andrade Coimbra

Resumo


O objetivo deste artigo é tecer algumas considerações acerca da poesia de Marília Garcia tomando como pretexto inicial a ideia de rizoma de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Especulando sobre a existência de dois aspectos na obra de Marília Garcia, a saber: cartografias afetivas e mapas sobrepostos, levantamos a hipótese de que sua obra pode ser vista como um “agenciamento maquínico” que se conecta com outros agenciamentos, ou seja, estabelecem conexões que não se ligam a nenhum centro, a nenhum enraizamento, constituindo um platô. Nesse sentido, o sujeito lírico não se anula, nem se apaga, mas retorna como um “cartógrafo” que devora paisagens afetivamente, absorvendo matéria de varia procedência. O resultado é um mapa com múltiplas faces, múltiplas entradas e saídas, cujo olhar do sujeito lírico arranca a si mesmo da lógica binária ou pivotante, trabalhando na multiplicidade do jogo interioridade/exterioridade. Dessa forma, todo e qualquer ponto pode ser um centro, ao mesmo tempo em que pode não o ser: tudo é passagem, mapa aberto, passageiro, “linhas de fuga”.

Palavras-chave


Inespecificidade. Rizoma. Poesia contemporânea. Sujeito lírico. Multiplicidades.

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DOI: https://doi.org/10.30612/raido.v14i36.12647

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