Toma que o espelho é seu!: artes cênicas e psico/vida em narrativas pessoais de cor/pas negras

Cláudia Simone dos Santos Oliveira, Elisângela de Jesus Santos, Talita de Oliveira

Resumo


O presente trabalho visa estabelecer um diálogo interdisciplinar entre as Artes Cênicas, os Estudos Étnico-Raciais e a Linguística Aplicada de modo a buscar respostas para o desafio de se estudar os efeitos do racismo na saúde mental de mulheres negras. Para tanto, partimos da criação e apresentação do espetáculo teatral ME Editar nas águas que me atravessam, com base na concepção estético-investigativa do Teatro das Oprimidas. Em seguida, analisamos a narrativa oral de experiência pessoal de Dandara, uma mulher negra espectadora da performance teatral. Partindo dos elementos formais da narrativa laboviana (LABOV, 1972) e da noção de perspectivismo (BRUNER; WEISSNER, 1991), a análise da narrativa aponta para o sofrimento psíquico vivenciado por mulheres negras em razão da retirada do espelho, simbolicamente representando a ausência de identidade, de autocuidado e de voz. Ao mesmo tempo, a conexão narrativa promovida pelo encontro entre a performance teatral e a roda de conversa subsequente potencializa a retomada do espelho, abrindo espaço para a ruptura dos ciclos de opressão a que as mulheres negras estão submetidas e fazendo mover as águas do silêncio. Ouvir e analisar essas histórias contribuem fundamentalmente para o desafio de se produzir conhecimento socialmente relevante e engajado na luta antirracista.

Palavras-chave


Narrativas orais. Mulheres negras. Teatro das Oprimidas.

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DOI: https://doi.org/10.30612/raido.v14i36.11804

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