Controvérsias e desafios metodológicos e políticos da classificação racial na biomedicina

Tatiane Pereira Muniz

Resumo


A Biologia e as ciências da vida tem refutado a raça enquanto categoria biológica para classificar seres humanos desde a declaração das raças da UNESCO que data dos anos 1950. Entretanto, categorias raciais continuam a ser utilizadas na prática médica, especialmente na investigação genômica. Nos primeiros estudos realizados depois do Projeto Genoma, no início do século XXI, a tecnologia genética tem se orientado principalmente para estudos de ancestralidade genômica, considerando que existem polimorfismos que distinguem diferentes populações, que estes polimorfismos são importantes para predizer certas condições genéticas em saúde e podem justificar a segregação os seres humanos em grupos discretos. De acordo com a genética médica, alguns destes polimorfismos expõem os indivíduos a especificidades biológicas e fisiológicas que devem ser consideradas no diagnóstico e no tratamento de saúde na perspectiva de prevenir disparidades em saúde. As controvérsias emergem quando discursos em torno de disparidades na biologia se conectam com as desigualdades em saúde como efeito do racismo, desafiando pesquisadores da área médica, profissionais de saúde, gestores de políticas públicas e os movimentos sociais a desnaturalizarem tais diferenças em suas práticas ao mesmo tempo em que contribuem para materializá-las. A partir do trabalho etnográfico realizado entre geneticistas, profissionais de saúde, gestores de saúde e movimentos sociais no sul do Brasil, este artigo traz algumas reflexões sobre as complexidades e controvérsias acerca dos processos científicos e políticos de classificação racial.


Palavras-chave


Raça. Genética. Saúde

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DOI: https://doi.org/10.30612/nty.v7i10.10296

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