CHAMADA DOSSIÊ "TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS NO BRASIL"

Nas últimas décadas, o campo das Relações Internacionais (RI) tem se mostrado um espaço profícuo para o levantamento de questionamentos teóricos e conceituais em diálogo com outras áreas do conhecimento. Mais especificamente, dualismos como Teoria/Prática, Centro/Periferia, Norte Global/Sul Global, Ocidente/Não-Ocidente têm sido questionados do ponto de vista da sua influência, ainda que muitas vezes implícita. Nessa linha, também reflexões sobre raça, classe, gênero, sexualidade e outros marcadores de diferenciação e discriminação têm contribuído para a redefinição dos assuntos considerados relevantes em RI. Somam-se a esse panorama os esforços voltados a releituras de teorias clássicas ou historicamente predominantes no campo. 

Segundo censos recentes do campo no Brasil[1], as publicações ligadas diretamente às RI têm tido um caráter explicitamente mais empírico do que teórico-conceitual; e mesmo as pesquisas teóricas existentes tendem a ser fruto de interesses secundários dos pesquisadores e a permanecer pautadas em arcabouços teóricos desenvolvidos nos EUA (e, por vezes, na Inglaterra, no Canadá e na Austrália). Ainda assim, espaços como os Encontros Nacionais e o Seminário de Pós-Graduação da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), edições especiais e regulares de periódicos especializados, e dissertações e teses apresentadas em departamentos de RI, apontam outras dinâmicas em curso. Com efeito, observa-se, nestes espaços, o fortalecimento do interesse em discussões explicitamente teórico-conceituais, assim como diferentes formas de se pensar a divisão entre teoria e empiria. Ademais, estes movimentos são caracterizados pela pluralidade de abordagens a questões teóricas e conceituais, não se restringindo a correntes ou localidades específicas. 

Diante deste cenário, surge a necessidade de explorarmos as potencialidades destas formas de reflexão em Relações Internacionais no Brasil, evitando os modos de pensar que as neutralizam em favor de trabalhos empíricos pretensamente destituídos de teorização. Em outras palavras, coloca-se a importância de mobilizarmos os recursos conceituais disponíveis no campo em direção a estudos teóricos e teórico-empíricos que contribuam para o questionamento dos dualismos apontados acima.   

Neste sentido, o Dossiê "Teoria das Relações Internacionais no Brasil" busca contribuir para estes movimentos no país, criando um espaço de diálogo e trocas e encorajando contribuições que mobilizem arcabouços teóricos e conceituais de Relações Internacionais com a finalidade de fortalecer tanto a produção teórica quanto a teórico-empírica, em múltiplas direções. Desta forma, convida-se a submissão de propostas que se engajem com uma ou mais das seguintes perguntas: 

 

  • Como repensar as chaves conceituais que tradicionalmente mobilizam o campo teórico das Relações Internacionais?
  • Quais os possíveis significados do “fazer teórico” e a relação entre “teoria” e “empiria”?
  • Como a comunidade epistêmica de RI no Brasil participa da chamada “geopolítica do conhecimento”? Como se pode refletir sobre a relação entre conceitos importados e idiossincrasias locais? 
  • Como discussões sobre os conceitos das Relações Internacionais redefinem entendimentos de política internacional e/ou contribuem para diferentes agendas de pesquisa no Brasil?
  • Qual a validade das categorias “Centro/Periferia”, “Ocidente/Não-Ocidente” e/ou “Norte Global/Sul Global” para se pensar a política global e a produção de conhecimento? 
  • Como raça, classe, gênero, sexualidade e/ou outros marcadores de diferenciação e discriminação podem ser mobilizados na teorização das relações internacionais?   
  • Como conceitos e perspectivas teóricas disponíveis no campo das Relações Internacionais podem ser mobilizados e repensados na relação com outras áreas do conhecimento?
  • Qual a contribuição que a produção de conhecimento no Brasil pode ter para o caráter interdisciplinar e transdisciplinar da pesquisa em Relações Internacionais?
  • Considerando a dimensão epistêmica do poder internacional, como pensar/problematizar os limites e possibilidades que o campo das RI dispõe aos saberes subalternizados? 

Os artigos serão recebidos até 16 de setembro de 2019.

 

Organização:

Prof. João Nackle Urt (UFGD)

Profª. Lara Martim Rodrigues Selis (UFU)

Prof. Victor Coutinho Lage (UFBA)



[1] VILLA, Rafael D.; TICKNER, Arlene B.; SOUZA, Marília Carolina B.; MÁSMELA, Yamile Carolina C. “Comunidades de Relações Internacionais na América Latina: uma análise das tendências a partir do TRIP 2014”. Carta Internacional, v.12, n.1, 2017, p.224-256; TEACHING, RESEARCH & INTERNATIONAL POLICY. “TRIP Faculty Survey in Brazil”, 2014. Disponível em: https://trip.wm.edu/charts/#/questions/12