Estado, capital e educação: reflexões sobre hegemonia e redes de governança

Eneida Oto Shiroma, Olinda Evangelista

Resumo


Neste artigo, discutem-se algumas abordagens sobre governança e as contribuições gramscianas para compreender as mudanças na relação entre Estado e Sociedade Civil no contexto da “nova gestão pública”. A noção de “governança sem governo” secundarizou o papel do Estado, destacando a atuação de organizações do chamado “Terceiro Setor”. Argumenta-se que Estado e organizações da Sociedade Civil atuam juntos na governança constituindo redes de políticas públicas. As ações oriundas dessas articulações em nível global contribuíram para a harmonização dos interesses de governos, os Capitais nacional e internacional, tendo em vista instituírem novas formas de gerir o social. A necessidade de manutenção da hegemonia burguesa demanda a construção de uma sociabilidade capaz de assegurar a coesão social, desencadeando “mudanças substantivas nos padrões de governança” que repercutiram na reconversão da função social da escola. O desafio foi o de compreender e fazer frente às novas formas de organização encontradas pelo Capital para atualizar, segundo seus interesses, o sentido da Educação e da escola. O processo de construção de hegemonia supõe a organização de consensos e velamentos. Contraditoriamente, pensar a educação e a escola como espaços de velamento e desvelamento é uma possibilidade objetiva.

Palavras-chave


Políticas Públicas. Hegemonia. Educação.

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