Maternidade, essencialismo e direitos reprodutivos: a extrema direita e o aborto nas campanhas das deputadas do PL (2018-2022)
DOI:
https://doi.org/10.30612/nty.v13i22.21081Palavras-chave:
antifeminismo, direitos reprodutivos, maternidade, conservadorismo, representação políticaResumo
O artigo analisa como deputadas federais eleitas pelo Partido Social Liberal (PSL) e Partido Liberal (PL) nas eleições de 2018 e 2022 utilizam discursos essencialistas sobre maternidade para legitimar sua presença na política e sustentar propostas que restringem direitos reprodutivos, especialmente o aborto. A maternidade é mobilizada como valor moral e político, alinhando-se a um projeto conservador e antifeminista da extrema direita. A pesquisa, fundamentada em análise de campanhas eleitorais e discursos parlamentares, demonstra como essas parlamentares constroem a figura da “boa mãe” como símbolo de autoridade moral e rejeição à agenda feminista. Com base na epistemologia feminista, o artigo argumenta que esse ideal de maternidade atua como dispositivo de controle político e social, apagando experiências diversas, sobretudo de mulheres negras e periféricas. A campanha “Criança Não é Mãe” é discutida como exemplo da disputa moral em torno do aborto. Por fim, defende-se a integralidade dos direitos sexuais e reprodutivos, assim como a desnaturalização do vínculo entre maternidade e identidade feminina hegemônica como condição para afirmar os direitos reprodutivos como parte fundamental da cidadania plena.
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