A territorialização de projetos eólicos e solares no Piauí (Brasil): dinâmicas e agentes
DOI:
https://doi.org/10.5418/ra2025.v21i46.19437Palavras-chave:
colonialismo energético, estrangeirização das terras, transição energéticaResumo
A questão ambiental e climática tem sido apropriada por Estados, empresas e instituições multilaterais por meio de uma política de mudança climática centrada em soluções baseadas na natureza, entre elas a transição energética. No Brasil, os primeiros projetos energéticos eólicos e solares foram implementados a partir de uma política nacional de diversificação da matriz energética, mas logo passaram a ser incorporados à agenda da transição energética. O Piauí se destaca, pois concentra um grande número de projetos eólicos e solares, majoritariamente controlados por empresas vinculadas ao capital estrangeiro. O objetivo deste artigo é analisar a expansão dos projetos de energia eólica e solar no Piauí, evidenciando o processo de territorialização promovido pelas empresas. A partir de uma abordagem qualitativa e quantitativa, é possível concluir que a territorialização desses projetos no estado não resulta em uma verdadeira transição energética, mas sim em um processo de estrangeirização das terras e de colonialismo energético.
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