Privatização da Eletrobras
crise planejada e a condição do atraso
DOI :
https://doi.org/10.5418/ra2022.v18i36.16258Mots-clés :
setor elétrico, privatização, mercado financeiro, dependência econômicaRésumé
A privatização da Eletrobras está ligada a um movimento de ampliação da proeminência financeira sobre ativos e setores estratégicos. Empresas desse porte são muito visadas pelo mercado de ações porque operam com caixas muito altos e possuem fluxo contínuo, patrimônio acumulado e a possibilidade de elevação da extração de valor por meio de regulação tarifária. Esse movimento, contudo, representa a imposição de um modelo comprovadamente ineficiente e danoso à sociedade brasileira ao retirar da Eletrobras a sua função social. Este artigo analisa o processo de desestatização da empresa desde a apresentação da primeira Medida Provisória em 2017 até a formalização da privatização em junho de 2022 na Bolsa de Valores B3, sediada em São Paulo. Apresenta também um conjunto de dados, mapas e informações que ajudam a evidenciar as estratégias pré-privatização que se concentraram especialmente em 2020 e 2021, culminando no que podemos denominar de gestão geradora (ou aceleradora) de crise como artifício de convencimento, de desarticulação do setor e de viabilização da privatização. As consequências desse processo, delineadas na última parte, expõem uma política que amplia a vulnerabilidade econômica do país bem como a sua condição de dependência e atraso.
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