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Ñanduty é uma palavra polissêmica em língua guarani, constituída de duas partes: ñandu e ty. O vocábulo ñandu pode ser substantivo, quando empregado para designar aranha (aracnídeo), mas também pode servir como verbo, no sentido de sentir, experimentar sensações, averiguar ou pressentir, além denotar ir, ver ou visitar alguém por cortesia, solidariedade ou afeição. O sufixo ty, cuja pronúncia é nasal, pode significar urina, suco  ou  sumo, indicar coletivo (avatity =  milharal; jetyty = batatal), designar grandeza de alguma coisa ou mesmo ser empregado como no sentido de jogar ou lançar algo em alguma direção. Comumente a palavra é usada no sentido de “teia de aranha”, tanto no Paraguai quanto em entre os Guarani e Kaiowa que vivem em Mato Grosso do Sul. Entre a população paraguaia, por exemplo, o vocábulo também é empregado para designar uma renda fina e típica do artesanato regional (cultura material), cujo formato colorido lembra uma teia de aranha. Também é empregada no sentido de grande rede de relações sociais, motivo principal pelo qual a palavra foi escolhida como nome da revista eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFGD. Por isso entre a expressão "www" (Word Wide Web), muito comum na linguagem da Internet, é denominada Ñanduty Rogue Guasu naquele país vizinho.

DOSSIÊ TEMÁTICO REVISTA ÑANDUTY 2021-1

 

Lugar, política e interseccionalidade na produção do conhecimento antropológico

Submissões até 30/04/2021 e deverão ser feitas exclusivamente pelo site da revista http://ojs.ufgd.edu.br/index.php/nanduty

( Dúvidas podem ser sanadas pelo e-mail revistappgant@gmail.com c/c suporte.editora@ufgd.edu.br )

Coordenadores do dossiê

Milton Ribeiro da Silva Filho (UEPA); Thiago de Lima Oliveira (USP); Vinícius Venancio (UnB)


Desde meados da década de 1970, a reflexão sobre a organização do poder e a produção de conhecimento na/sobre a sociedade brasileira tem sido infletida pela emergência de atores sociais que se alçaram à posição de interlocutores no contexto da ação política e da produção de conhecimento. Em grande medida esse processo foi possível pela constituição de movimentos sociais e coletivos organizados que ganharam espaço na agenda de pesquisa em Antropologia e Sociologia, participando também da ampliação dos modelos interpretativos para subjetividades e institucionalidades.
As possibilidades de participação, produção conjunta e transformação criadas por esses movimentos implicam também uma reflexão sobre as fronteiras entre a academia e a sociedade. Essas considerações são de natureza: 1) relacional e de construção de fenômenos de análise que respondam às provocações do presente; 2) epistemológica, quando permitem reconsiderar teorias e conceitos, arregimentar outras formas de saberes e produções de conhecimento; e 3) política, porque redimensiona o poder/dominação inserindo princípios disruptivos que radicalizam as normas e estruturas vigentes. Em outros termos, cabe questionar: quais sujeitos e trajetórias podem participar da produção do conhecimento? Como? Onde?
Nas últimas décadas, a reorganização dos limites entre sociedade e universidade vem sido também tensionada por projetos governamentais de expansão do ensino superior, em nível de graduação e pós-graduação. No caso da Antropologia, é notório o crescimento de cursos de graduação, e de modo notório, em contextos afastados dos grandes centros urbanos regionais ou nacionais. Essa configuração deve ser pensada também em termos da produção de um conhecimento situado que reflita sobre como lugar e outros eixos de diferenciação se aproximam.
Esse dossiê busca reunir reflexões que tematizem noções de lugar e seus efeitos como categoria de diferenciação na experiência etnográfica e na produção antropológica. A partir de artifícios variados, o ocultamento das marcas de lugar tem servido como recurso para produção de margens e centros, interdição da circulação e a construção de certos dispositivos de silenciamento. A invisibilização das marcas de lugar é um recurso que deve ser circunscrito em um projeto político de conhecimento, e não tomado como um recurso reificado de determinados pactos de hegemonia. O dossiê interessa-se por debates em torno dos seguintes eixos:
(a) Geopolítica da circulação de conhecimento: constituição de assimetrias regionais e o lugar como dispositivo na circulação da produção antropológica entre centros e margens;
(b) Interseccionalidade e eixos de diferenciação: o lugar como categoria de diferença na produção antropológica e seus efeitos sobre processos formativos em antropologia;
(c) As margens globais desde as margens nacionais: experiências de pesquisa em alianças localizadas entre as margens nacionais e outras margens do sistema global.

 

 
Publicado: 2021-01-26
 
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