Entre a crise e a crítica: migrações e refúgio em perspectiva global

Carolina Moulin Aguiar

Resumo


O artigo argumenta que a narrativa sobre a crise global contemporânea das migrações e do refúgio se sustenta por meio da articulação específica entre a dimensão do ‘problema do deslocamento’ e determinadas formas de concepção espaço-temporais das dinâmicas de pertencimento. Referida articulação é analisada através de quatro chaves: i) a política dos números, ii) a política do movimento, iii) a política do tempo e iv) a política da ‘governabilidade’. A junção dessas políticas avança um modelo de ‘inteligibilidade’ e gerenciamento da mobilidade que vem sendo tomado como ponta de lança no debate sobre os limites da própria globalização. Esse modelo hegemônico de interpretação, embora constantemente tensionado pelas lutas por direitos de refugiados e migrantes e pela própria resistência da mobilidade como fenômeno, tem operado na redução dos espaços de proteção, no cerceamento das rotas e na conversão do movimento em objeto prioritário de intervenção, com vistas a permitir a filtragem, modulação e autorização das formas de circulação desejáveis e a contenção e exclusão, usualmente violentas, dos indesejáveis. Conclui-se que o discurso da crise permite avançar uma governamentalidade migratória globalizada que articula o direito ao movimento como chave fundamental de produção de desigualdades na ordem capitalista contemporânea.

Palavras-chave


Refúgio. Crise. Migrações.

Texto completo:

PDF

Referências


AMOORE, Louise. Cloud geographies: computing, data, sovereignty. Progress in Human Geography, v.42(1), pp.4-24, 2018.

APPADURAI, Arjun. Fear of Small Numbers: an essay on the geography of anger. Durham: Duke University Press, 2006.

BALIBAR, Etienne. “Europe as Borderland.” Environment and Planning D: Society and Space, vol. 27, no. 2, pp. 190–215, 2009.

BARNETT, M. ‘Evolution without progress? Humanitarianism in a world of hurt’ International Organization, v.63, n.4, pp. 621–663, 2009.

BAUMAN, Zygmunt. Estranhos à nossa porta. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

BAUMAN, Zygmunt. Globalization: the human consequences. New York: Columbia University Press, 1998.

BELLAMY, A.J. ‘Humanitarian responsibilities and interventionist claims in international society’. Review of International Studies v.29, n.3, pp. 321–340, 2003.

BELLONI, Roberto. "The Trouble with Humanitarianism." Review of International Studies, v. 33, n. 3, pp. 451-74, 2007.

BIGO, Didier. Security and Immigration: Toward a Critique of the Governmentality of Unease. Alternatives, v.27, n.1, pp. 63 - 92, 2002.

BILGIN, Pinar & BILGIÇ, Ali. Consequences of European Security Practices in the Southern Mediterranean and Policy Implications for the EU. SSRN Electronic Journal/PSN: Global & Regional Governance, 2011.

BROWN, Wendy. Walled States, Waning Sovereignty. New York: Zone Books, 2010.

BUTLER, Declan. What the numbers say about refugees. Nature, v.543, n.7634, 2017. Disponível em: https://www.nature.com/news/what-the-numbers-say-about-refugees-1.21548. Acessado em 15 de fevereiro de 2018.

CHIMNI, B.S. ‘First Harrell-Bond lecture: Globalization, humanitarianism and the erosion of refugee protection’. Journal of Refugee Studies, v.13, n.3, pp. 243–264, 2000.

CHRISTIE, Ryerson. ‘Critical readings of humanitarianism’. In: McGinty, Roger and Jenny Peterson. The Routledge Companion to Humanitarian Action. Routledge, 2015.

COMITÊ INVISÍVEL. Aos nossos amigos: crise e insurreição. São Paulo: N-1 Edições, 2016.

DE BEER J, Raymer J, van der Erf R, van Wissen L. Overcoming the Problems of Inconsistent International Migration data: A New Method Applied to Flows in Europe. European Journal of Population. v.26, n.4, pp. 459-481, 2010.

DE GENOVA, Nichola e Natalie Peutz. The deportation regime: sovereignty, space and the freedom of movement. Durham: Duke University Press, 2010.

DIJSTELBLOEM, Huub. Migration tracking is a mess. Nature, v.543, n.7643. Disponível em: https://www.nature.com/news/migration-tracking-is-a-mess-1.21542. Acessado em 15 de fevereiro de 2018.

DOTY, Roxanne e Elizabeth Wheatley. Private Detention and the immigration industrial complex. International Political Sociology, v.7, n.4, pp.426-443.

FASSIN, Didier. Humanitarian Reason: A Moral History of the Present. University of California Press, 2013.

GAMMELTOFT-HANSEN, Thomas. Access to Asylum: International Refugee Law and the Globalisation of Migration Control. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 2013.

GONZALEZ-BARRERA, Ana. What we know about illegal immigration from Mexico. 2018. Disponível em: https://www.pewresearch.org/fact-tank/2018/12/03/what-we-know-about-illegal-immigration-from-mexico/. Acessado em 12 fevereiro de 2019.

GUILHOT, N. ‘The anthropologist as witness: Humanitarianism between ethnography and critique’. Humanity, v.3, n.1: 81–101, 2000.

HOWDEN, Daniel e FOTIADIS, Apostolis. The Refugee Archipelago: the inside story of what went wrong in Greece. Refugees Deeply, Disponível em: https://www.newsdeeply.com/refugees/articles/2017/03/06/the-refugee-archipelago-the-inside-story-of-what-went-wrong-in-greece. Acessado em 20 de março de 2017.

HUYSMANS, Jef. The politics of insecurity: fear, migration and asylum in the EU. London: Routledge, 2006.

JUBILUT, Liliana Lyra. O Direito internacional dos refugiados e sua aplicação no ordenamento jurídico brasileiro. São Paulo: Método, 2007.

MALKKI, Liisa. National Geographic: The Rooting of Peoples and the Territorialization of National Identity among Scholars and Refugees. Cultural Anthropology, v.7, n. 1, pp. 24-44, 1992.

MOULIN, Carolina; NYERS, Peter. “We Live in a Country of UNHCR”—Refugee Protests and Global Political Society, International Political Sociology, V. 1, n.4, pp.356–372, 2007.

MOULIN, Carolina. A política internacional da mobilidade: governamentalidade global e a produção da diferença no discurso disciplinar contemporâneo. In: OLIVEIRA, S. Migrações e a Pan-Amazônia. Manaus: Editora UFAM, 2012.

NYERS, Peter. Rethinking Refugees: beyond states of emergency. New York: Routledge, 2006.

RAJARAM, Prem Kumar, KALLIUS, Annastiina, MONTERESCU, Daniel. Immobilizing mobility: Border ethnography, illiberal democracy, and the politics of the “refugee crisis” in Hungary. American Ethnologist, v.43, n.1, pp.25-37, 2016.

SALTER, Mark B. “The Global Visa Regime and the Political Technologies of the International Self: Borders, Bodies, Biopolitics.” Alternatives, vl. 31, n. 2, pp. 167–189, 2006.

SIGONA, Nando. Why UN Summit for Refugees and Migrants was doomed to fail before even starting. Blog post, 2016. Disponível em: https://nandosigona.info/2016/09/19/is-this-a-crisis-of-historical-proportion/. Acessado em 22 de março de 2017.

WALTERS, W. ‘Foucault and frontiers: Notes on the birth of the humanitarian border’ In: U Bröckling; S Krasmann and T Lemke (eds) Governmentality: Current Issues and Future Challenges. New York: Routledge, pp. 138–164, 2011.




DOI: https://doi.org/10.30612/rmufgd.v8i16.9802

Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD - ISSN 2316-8323 - Dourados - MS, Brasil.

 

Licença Creative Commons
Este obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Brasil.