Guerra contra as drogas: medo e ódio e as opressões imbricadas de gênero, raça e classe em território brasileiro

Luciana Costa Fernandes

Resumo


Em território latino-americano, a chamada “guerra contra as drogas” tem se apresentado como importante moduladora das relações de opressão que determinam hierarquias de raça, classe e gênero na região. Catalisadores de processos que remontam ao colonialismo, os delitos de drogas têm servido como legitimadores da manutenção de uma ordem de extermínio e encarceramento que atinge preferencialmente pessoas negras e, cada vez mais, mulheres. Através de revisão bibliográfica, este artigo pretende debater como a política está revolvida por constructos de ódio e medo próprios; constitui práticas de criminalização de pessoas negras e pobres em território marginal; bem como os impactos específicos no encarceramento de mulheres neste território.

Palavras-chave


Guerra contra as drogas. Colonialismo. Encarceramento de mulheres.

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DOI: https://doi.org/10.30612/rmufgd.v9i17.10953

Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD - ISSN 2316-8323 - Dourados - MS, Brasil.

 

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