CHAMADA DOSSIÊ "O SUL GLOBAL E SUAS PERSPECTIVAS: AMPLIANDO AS FRONTEIRAS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS"

Chamada para Artigos

Dossiê “O Sul Global e suas perspectivas: ampliando as fronteiras das Relações Internacionais”

Monções, Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) (ISSN 23168323) está selecionando artigos para o Dossiê "Ampliando as fronteiras das Relações Internacionais a partir de perspectivas do Sul Global”. A revista aceita artigos inéditos em português, espanhol, francês ou inglês. O prazo máximo de submissão é 17 de dezembro de 2021.

 

Apresentação e objetivos

Nas Relações Internacionais, questiona-se cada vez mais a dominância de referências construídas por autores filiados a instituições no Norte Global na definição de conceitos, teorias e paradigmas (ACHARYA; BUZAN, 2007; HURRELL, 2016; BUZAN, 2016; ALEJANDRO, 2019). Mesmo que este debate não seja recente, datando pelo menos da década de 1970 (HOFFMAN, 1977), muitas das questões levantadas nestas últimas quatro décadas permanecem atuais. Grande parte do “cânone disciplinar” carece de diversidade, e assim produz e reproduz uma RI que não representa as múltiplas realidades do globo e que ignora diversas vozes, interesses, e perspectivas do Sul Global. 

A fim de avançar as fronteiras da disciplina através de tal crítica, muitos autores têm incentivado maior reflexividade e pluralismo para tornar as RI uma disciplina genuinamente Global. O objetivo da Global IR/“RI Globais”, entendida aqui como um movimento intra- e interdisciplinar, é promover o diálogo entre as tradições existentes, incorporar conhecimento marginalizado e investigar como conceitos e teorias são aplicados, modificados e expandidos no Sul Global. O objetivo é reformar e expandir a disciplina para que ela se aproxime mais da representação de diferentes espaços internacionais – incluindo não só as políticas dos países periféricos, mas também os indivíduos e agências que tendem a ser excluídos dos conceitos e paradigmas tradicionais.

Apesar de uma rica e frutífera produção crítica acadêmica nas Relações Internacionais, a qual inclui importantes discussões acerca das limitações das teorias tradicionais para entender a nossa realidade (CERVO, 2008), os silenciamentos produzidos pela academia (FERNANDEZ, 2019), e as possibilidades locais de teorização (BARASUOL; SILVA, 2016, URT; SELIS; LAGE, 2019), o debate sobre as “RI Globais” ainda pouco se difundiu na academia brasileira. De fato, e de forma um tanto quanto paradoxal, este debate tem se dado principalmente em espaços e publicações do Norte Global. 

O objetivo deste dossiê, portanto, é coletar artigos que (i) ofereçam ferramentas para compreender a ordem global em constante mudança por lentes marginalizadas do Sul Global; (ii) questionem os diferentes padrões de difusão de poder e suas consequências para o entendimento de Relações Internacionais nas diversas partes do mundo; ou (iii) debatam criticamente o estado da arte da disciplina, suas limitações, e suas constantes exclusões no que tange temas relacionados a raça e gênero, entre outros. 

Ademais, esse dossiê busca promover diálogos interdisciplinares e inter-paradigmáticos, fazendo uma ponte entre acadêmicos de diferentes áreas, gêneros, senioridade na carreira, origens ou regiões. Dessa maneira, são bem-vindos pesquisadores interessados em avançar nossos conhecimentos sobre Relações Internacionais por meio da inclusão e reimaginação, abraçando as possibilidades de difusão do poder dentro da disciplina e explorando como conceitos viajam, se traduzem e se readaptam. 

Dessa maneira, a seguir, oferecem-se sugestões de perguntas sobre as quais esperamos receber contribuições originais:

  1. De que maneiras as vozes e conhecimentos elaborados no Sul Global são excluídos do cânone tradicional das RI? 
  2. De qual maneira a distribuição desigual de poder dentro da produção de conhecimento afetou e tem afetado a formação da área e sua institucionalização?
  3. Como mapear a produção de “Global IR/RI Globais" do Sul Global? Existem metodologias ou abordagens específicas que auxiliam nesse exercício? Elas mantêm um foco interdisciplinar e plural?
  4. Como reconhecer perspectivas, vozes e pontos de vista do Sul Global? Como elas podem alterar ou redirecionar conceitos tradicionais de RI que são, originalmente, elaborados a partir de experiências do Norte Global, voltados para a solução de problemas do Norte Global?
  5. Como compatibilizar a autenticidade dos pensamentos nacionais com sua tendência ao hibridismo intelectual decorrente do passado colonial inerente ao Sul Global? 
  6. Quais métodos podem ser utilizados para identificar variantes nacionais de pensamento? 
  7. Quais as consequências da formalização da agenda de“Global IR/RI Globais" para uma disciplina que já conta com debates que oferecem diversidade paradigmática para a área?
  8. Como as questões sobre raça podem complementar ou revolucionar o imaginário da disciplina? De quais maneiras o debate sobre racismo e colonialismo é crucial para iniciar o processo de des-ocidentalizar uma disciplina que nasceu no âmago de empreendimentos imperialistas e orientalistas?
  9. Qual a importância sociológica e filosófica das questões de gênero para uma agenda de pesquisa, “Global IR/RI Globais", que pretende ampliar geográfica e filosoficamente o debate das Relações Internacionais?
  10. É possível  definir uma RI endógena brasileira? Quais outros países latino-americanos estão investindo em produções intelectuais específicas e locais no que tange RI e política internacional?
  11. Considerando as “Global IR/RI Globais" como um movimento que defende uma troca de conhecimentos que ofusque os limites entre nacional e internacional, externo e interno, como seria possível transformar o local em global e o global em local?
  12. Existe um sul e um norte dentro do Sul Global? Como as questões de desigualdades (sócio-econômicas, étnicas, gênero, regionais) dentro dos países do Sul Global se refletem na produção de conhecimento de RI? 
  13. Como particularmente a América Latina pode oferecer novos espaços para estudar RI e desenvolver conhecimento dissidente do mainstream?

Organizadoras

Fernanda Barasuol (Universidade Federal da Grande Dourados)

Luiza Cerioli (Universidade de Marburg)

Mariana Kalil (Escola Superior de Guerra)

 

Referências

ACHARYA, Amitav; BUZAN, Berry. Why is The No Non-Western International Relations Theory? An Introduction.International Relations of the Asia-Pacific, vol. 7, n. 4, 2007.

ALEJANDRO, Audrey. Western dominance in international relations? The internationalisation of IR in Brazil and India. London, New York: Routledge Taylor & Francis Group, 2019. 

BARASUOL, Fernanda; DA SILVA, André Reis. International Relations Theory in Brazil: trends and challenges in teaching and research. Revista Brasileira de Política Internacional, vol. 59, n. 2, 2016. 

BUZAN, Berry. Could IR Be Different? International Studies Review, vol. 18, n. 1, 2016. 

FERNANDEZ, Marta. As Relações Internacionais e seus Epistemicídios. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, vol. 8, n. 15, 2019. 

HURRELL, Andrew. Towards the Global Study of International Relations. Revista Brasileira de Política Internacional, vol. 59, n. 2, 2016. 

URT, João Nackle; SELIS, Lara Martins Rodrigues; LAGE, Victor Coutinho. A Teorização em Relações Internacionais no Brasil Importa? Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, vol. 8, n. 15, 2019.