As agências de classificação de risco e seus impactos sobre a governança democrática: uma análise do caso brasileiro

Pedro Lange Netto Machado

Resumo


Este artigo argumenta que as agências de classificação de risco atuam como um canal de pressão por meio do qual as preferências políticas do mercado financeiro se impõem aos Estados nacionais. No contexto de globalização financeira, os governos se veem em meio ao conflito entre as demandas democráticas de seus eleitores e as pressões provenientes do sistema internacional de finanças. Um dos instrumentos que materializam essas pressões são as agências de classificação de risco, que confrontam o sistema político vigente nos Estados e, por consequência, a governança democrática. O argumento se desenvolve a partir do caso do Brasil, desde o processo de impeachmentde Dilma Rousseff até a suspensão da votação da reforma da previdência pelo governo Temer, e se confirma a partir da análise de relatórios e dos ratingsemitidos pelas agências, assim como de suas declarações nos canais de mídia.

Palavras-chave


Globalização financeira. Agências de classificação de risco. Brasil.

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DOI: https://doi.org/10.30612/rmufgd.v7i13.8724

Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD - ISSN 2316-8323 - Dourados - MS, Brasil.

 

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