“Nossos governantes estão cheios de dinheiro”: construção de alteridades e sentimentos de pertença em torno do dinheiro. O caso dos magermanes em Moçambique

Héctor Guerra Hernández

Resumo


Viajar, vestir-se elegantemente, ostentar um aparelho de som sofisticado, oferecer presentes para as muitas namoradas, ter acesso a bens de consumo como geladeiras, aparelhos de televisão, motocicletas... Histórias de sucesso e bem-estar material predominam nos relatos dos moçambicanos que, outrora, trabalharam na República Democrática Alemã (RDA). Parte substancial do salário era transferida para Moçambique. A extinção da RDA provocou o retorno acelerado dos conhecidos como Magermanes, porém muitos conseguiram organizar contendores e trasladaram os bens materiais acumulados durante sua permanência neste país. E mais: chegaram “como ricos” num país desintegrado social e economicamente e assolado por uma guerra fratricida. Mas a história continua. As remessas de dinheiro transferidas “sumiram”. No entanto eles “conhecem” o paradeiro do seu dinheiro: burocratas da Frelimo (o partido no poder) teriam enriquecido ilicitamente com este dinheiro; bancos privados teriam sido formados, condomínios de luxo teriam sido construídos em Maputo, e assim por diante. Este artigo pretende explorar os sentidos do dinheiro no interior da história de um grupo social específico. Da memória da riqueza aos relatos de uma pobreza crescente e atual, as representações em torno do dinheiro são um elemento identitário decisivo para os Magermanes, orientam-nos em suas ações políticas e, sobretudo, articulam suas narrativas em torno dos seus supostos inimigos.

 

 


Palavras-chave


Moçambique. Dinheiro. Identidade.

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