Chamada para Dossiê: As fronteiras do trabalho em tempos de crise

A Revista MovimentAção, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Grande Dourados, lança chamada de contribuições para pensar questões relacionadas aos mundos do trabalho. Os principais temas de interesse são pandemia, novas formas de trabalho, fronteiras, movimentos sociais e gênero.

 

O mundo assiste hoje à propagação da COVID-19, doença altamente transmissível que levou à morte centenas de milhares de pessoas. Nesse contexto, o universo do trabalho apareceu como terreno contestado – as atividades laborais são a principal fonte de renda da maior parte da população, mas em meio à crise pandêmica trabalhar frequentemente implica riscos consideráveis. Na prática, tem prevalecido uma situação precária e permeada por conflitos que emergem desde os locais de trabalho, onde trabalhadores(as), sindicatos e outras organizações têm demandado proteção contra os impactos econômicos e sanitários da crise e também na política em sentindo ampliado, já que a prioridade à preservação da saúde, da renda ou dos lucros têm colocado em disputa posições divergentes, inclusive no que diz respeito à definição do que é “trabalho” e de quem são “trabalhadores(as)”.

 

A fragilidade corrente da proteção social ao trabalho não é novidade. De fato, a pandemia exacerbou desigualdades, exclusões e injustiças sociais anteriormente estabelecidas, potencializando elementos de crise que irromperam de forma recorrente nos últimos anos. Destacadamente, as novas formas de organização trabalho, a exemplo da “economia dos bicos” promovida por plataformas digitais (Uber, Rappi, 99, Cabify etc.) que acompanharam a expansão e descentralização crescente das redes globais de produção coordenadas por grandes empresas transnacionais (como a Amazon, por exemplo), têm radicalizado tendências de flexibilização em desenvolvimento já há algum tempo, o que foi acelerado pela pandemia. Por um lado, multiplicaram-se as relações contratuais, de (não) assalariamento e as formas de precarização do trabalho – o que é ilustrado pelas contendas judiciais ao redor do mundo sobre o não reconhecimento do status de trabalhadores(as) essenciais empregados por plataformas digitais em serviços de transporte urbano, entregas de mercadorias e outras atividades. Por outro, movimentos de resistência (como as greves organizadas por trabalhadores(as) “uberizados/as” em diferentes países) mostram a relevância da investigação de novas lutas trabalhistas e suas características regionais, étnicas, raciais e de gênero.

 

Nessa linha, propõe-se a reflexão sobre as fronteiras do trabalho nas sociedades capitalistas contemporâneas. O conceito é entendido de forma aberta – podemos pensar em fronteiras de uma perspectiva geográfica mais estrita (a difusão da produção para novos países e regiões, o que motiva, por exemplo, respostas internacionalistas às empresas transnacionais e a organização de alianças transfronteiriças ao longo das redes globais de produção), mas também pensar sobre as fronteiras do capital que avançam sobre a natureza e novas atividades, o que nos leva a questões como a degradação ambiental, a comoditização dos bens comuns, as privatizações e a precarização do trabalho. Podemos falar, ainda, de “fronteiras institucionais” que separam o trabalho formal do informal, o “produtivo” do “improdutivo”, o reconhecido do não-reconhecido. Para ficar em exemplos bem conhecidos, o argumento é que não é possível entender o trabalho nas sociedades capitalistas sem levar em conta o trabalho doméstico que, feito por mulheres, garantiu as condições para a exploração do trabalho masculino nas fábricas, sem compreender o trabalho executado por imigrantes destituídos de direitos de cidadania, sem teorizar o trabalho informal enraizado nas economias urbanas.

 

Especialmente, o dossiê está interessado por contribuições teóricas e empíricas que, na intersecção entre os estudos críticos do trabalho e dos movimentos sociais, ofereçam subsídios para a reflexão acerca dos limites de conceptualizações tradicionais de “trabalho” e “trabalhadores(as)” que, reduzindo esses conceitos às suas expressões fordistas tal como usualmente entendidas, acabaram por restringir sua centralidade às sociedades industriais “clássicas”. Esse debate assume sentidos particulares no Sul Global, onde o trabalho assalariado nas fábricas sempre conviveu com relações informais e não-salariais de exploração, o que oferece um ponto de partida promissor para a teorização das lutas sociais numa chave materialista e interdisciplinar.

 

A data limite para envio dos trabalhos é 31 de março de 2021 e a publicação do dossiê está prevista para 30 de junho de 2021. Para além de artigos, a Revista MovimentAção também aceita entrevistas, notas prévias, resenhas e resumos de teses e dissertações.

As contribuiçõespara o dossiê devem ser enviadas exclusivamente para o seguinte e-mail: katiusciagalhera@ufgd.edu.br 

 

Organização:

Katiuscia Moreno Galhera (UFGD)
Ricardo Framil Filho (USP)
Leonardo Antonio Silvano Ferreira (UNESP)