Chamada para Dossiê

A modernidade ocidental se configurou entre pálidas narrativas de democracias inacabadas, apropriações e violências, epistemicídios, genocídios, explorações, pilhagens e desigualdades. Entre luzes e sombras, instituiu-se um mundo divido por uma linha abissal - física, material e simbólica - a regular duas normatividades: uma pra vigorar nas “zonas metropolitanas” e outra nas “zonas coloniais” (SANTOS, 2018). Esta fronteira instaura a necessidade de se desocultarem como existentes os habitantes das “zonas de não ser” (FANON, 1975), zonas simultaneamente despojadas e passiveis de um ressurgimento singular. São produções sistemáticas de inexistências políticas, epistêmicas, econômicas e ontológicas cingidas por configurações de hierarquizações de poder, violências, invisibilidades de saberes (científicos e não-científicos), memórias, historicidades e identidades.

Nesse cenário, os e as intelectuais dos estudos descoloniais, subalternos, pós-coloniais e anticoloniais, em suas variadas abordagens teóricas e metodológicas, convidam-nos a uma cartografia provisória daquilo de dignidades humanas pós-abissais, necessariamente constituídas a montante daquilo que entendemos ser a genealogia abissal dos direitos humanos tendo em conta o racismo, o heteropatriarcado e o capitalismo. Assim sendo, neste número pretendemos:_

- Refletir sobre o modo como o pensamento único da racionalidade moderna ocidental tem se caracterizado pela produção sistemática de invisibilidades, ausências e (sub)humanização daqueles que lutam pela emergência das suas memórias, saberes e identidades na sociedade como justiça social, cognitiva, sexual e racial. Teremos por vase, a as “Epistemologias do Sul” (SANTOS, 2014) e a “Pedagogia do Oprimido” (FREIRE, 1975),

- Reconhecer a pluralidade dos saberes, tanto no interior das ciências (a pluralidade interna da ciência), como na relação desta com outras ciências e outros conhecimentos não-científicos e a pluralidade externa às ciências. Nessa conjuntura, as temáticas a seguir elencadas (e outras a elas vinculadas) são de especial interesse para este dossiê:

a) Análise da construção de solidariedades de saberes dentro e fora de espaços de educação (formal e informal) que problematizem as lutas e as resiliências feministas, antirracistas, anticapitalas, anticapacitistas e pela diversidade sexual e de género, enquanto forma de resistência e ferramenta epistemológica de libertação;

b)  As solidariedades feministas e antirracistas como estratégia de resistência contra a supremacia branca salientando o papel dos feminismos negros e indígenas para a consciencialização da intersecção entre gênero, raça e classe; c) A construção de saberes e estratégias emancipatórias, por exemplo, em movimentos sociais, ONGs, Coletivos e Centros de Pesquisa, e a importância de uma ética para com os grupos vulnerabilizados e subalternizados a partir da ecologias dos saberes;

e) Metodologias de pesquisa antirracistas, feministas pós-coloniais e/ou queer, e interseccionais que partam de múltiplos lugares de enunciação e anunciação, num exercício de autoreflexividade.

 

Referências Bibliográficas

 

CASTRO-GÓMEZ, SANTIAGO. Ciências Sociais, violência epistêmica e o problema da invenção do outro. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 80-87.

 

CARVALHO, Claudia Cristina F. Vulnerabilidades interseccionais? Gênero, classe, raça etnicidade: para além delas é possível educar em direitos humanos? Educação em Revista, Marília, v. 20, p. 67-82, 2019.

 

FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Lisboa: Ulmeiro, 1975.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Porto: Afrontamento, 1975.

 

MIGNOLO, Walter. La idea de América Latina: la herida colonial y la opción decolonial. Barcelona: Gedisa, 2007.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Porto: Afrontamento, 2000.

 

SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. Porto: Edições Afrontamento, 2006.

 

SANTOS, Boaventura de Sousa.  Epistemologies of the South. Justice against epistemicide. London: Paradigm Publishers, 2014.

 

SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo. Coimbra: Almedina, 2018.

 

SANTOS, Boaventura de Sousa. MARTINS, Bruno Sena; (org.). O pluriverso  dos direitos humanos: A diversidade das lutas pela dignidade. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019.

 

SUÁREZ BRIONES, Beatriz (org.) Feminismos lesbianos y queer: representación, visibilidad y políticas. Madrid: Plaza y Valdés Editores, 2014.