Conflitos e usos das águas na Santana dos olhos d’agua (1900-1957)

Autores

DOI:

https://doi.org/10.30612/rehr.v21i41.20349

Palavras-chave:

Conflitos, Usos, Águas, Feira de Santana

Resumo

O presente artigo objetiva analisar os conflitos relativos aos usos das águas na região de Feira de Santana (BA), entre 1900 e 1957, focalizando as tensões entre práticas costumeiras de uso comum frente a uma crescente privatização dos mananciais. Dialogando com E. P. Thompson e outros, o estudo elenca fontes judiciais, códigos de postura, periódicos, dentre outros tipos documentais em abordagem histórico-social para discutir usos compartilhados como expressão de resistência e identidade comunitária. A metodologia optou pela observação documental de processos-crime em torno das disputas por acesso aos mananciais, associada à uma interpretação crítica das relações de trabalho e da estrutura agrária. Nesse sentido, as águas ganhavam uma ambiguidade entre o direito coletivo e o bem privado, pois embora situados em propriedades privadas, tanques, fontes e aguadas, não raro eram culturalmente interpretados como bens de uso comum pelos sujeitos históricos e consequentemente, a escalada de restrições aos seus acessos eram consideradas abusivas e resultavam em conflitos físicos e simbólicos. Conclui-se que as hierarquias sociais de classe, raça e gênero complexificavam as disputas pela água reguladas pelos códigos costumeiros e tensionavam as resistências populares frente à racionalidade produtiva e à privatização dos recursos naturais, marcando disputas por autonomia, dignidade e permanência cultural.

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Biografia do Autor

Rodrigo Osório Pereira , Universidade Estadual de Feira de Santana

Possui Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC (2007), mestrado em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS (2009) e doutorado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG (2013). Atualmente, é Professor Titular do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia - DCHF da Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS. Foi Presidente da ANPUH-BA (2016-2018). Tem experiência nas áreas de História das Ciências, História Ambiental e Política Administrativa do Período Colonial Baiano, com ênfase nos sujeitos, práticas e saberes sobre a História Natural na Capitania da Bahia na transição do Século XVIII para o XIX. Atua, principalmente, nos seguintes temas: dinâmica de produção, circulação e usos dos conhecimentos sobre o meio natural; História da Botânica colonial; políticas de conservação das matas coloniais; Jardim Botânico da Bahia e a política de ervas luso-baiana.

Pedro Alberto Cruz de Souza Gomes, Universidade Estadual de Feira de Santana

Possui graduação no curso de Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2020). Tem experiência de pesquisa sobre Feira de Santana, com ênfase na relação entre sociedade e meio ambiente. Atualmente é funcionário administrativo da UEFS.

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Publicado

05-01-2026

Como Citar

Pereira , R. O., & Gomes, P. A. C. de S. (2026). Conflitos e usos das águas na Santana dos olhos d’agua (1900-1957). Revista Eletrônica História Em Reflexão, 21(41), 300–324. https://doi.org/10.30612/rehr.v21i41.20349