“Muito ciosa do direito à propriedade”: vigilância e silenciamento em um caso de desapropriação para a reforma agrária na ditadura militar brasileira
DOI:
https://doi.org/10.30612/frh.v26i49.19649Palavras-chave:
Reforma Agrária, Ditadura Militar, SNIResumo
O presente texto resulta de pesquisa exploratória documental sobre a ótica e o papel da Ditadura Militar brasileira no conflito de terras conhecido como “luta dos posseiros da Primavera”, ocorrido entre as décadas de 1960 e 1980, no extremo oeste paulista, que culminou na desapropriação da Fazenda Primavera. Embora tal conquista camponesa seja fruto da luta dos posseiros sob a mediação dos agentes pastorais da Teologia da Libertação, fato reconhecido em pesquisas sobre o tema, as fontes do SNI nos permitem entrever que os órgãos de informação e investigação da Ditadura e o INCRA consideraram outros elementos antes de procederem com a desapropriação. Sobre o caso da fazenda, no acervo do SNI encontramos um dossiê especial de três volumes que incluía um relatório produzido após oitivas de representantes da Agência Estadual, in loco, e muito processos tangentes, relativos à vigilância sobre os padres e especialmente sobre o suposto proprietário daquelas terras, J.J. Abdalla, que nos revelaram elementos surpreendentes a orbitarem o percurso das decisões. A análise crítica da investigação e documentação organizada pelo SNI nos possibilitou compreender que os silenciamentos, disputas de perspectivas e erros de inquéritos compunham práticas governamentais que concorreram para aumentar a perseguição política e violência no período. Ademais, constatamos que a incapacidade do Estado em conter os crimes econômicos de Abdalla, um dos homens mais ricos do país na atualidade, também revela continuidades desconcertantes do nosso tempo.
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