Dossiê FEMINISMOS, GÊNERO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Por que há tão poucas mulheres em minha disciplina?

Se eu leciono a disciplina da forma como ela é convencionalmente definida,

por que há tão poucos textos de mulheres para recomendar aos meus alunos?

Por que o tema da minha disciplina é tão distante das experiências vividas pelas mulheres?

Por que as mulheres têm sido notadas apenas

pela sua ausência nos mundos da diplomacia, militar e política exterior?

 

 

As indagações de J. Ann Tickner, uma das teóricas feministas mais conhecidas no campo das Relações Internacionais (RI), foram o pano de fundo do surgimento das abordagens que situam o gênero e a vida das mulheres como centrais nos estudos sobre política internacional. O Dossiê FEMINISMOS, GÊNERO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS - primeiro no Brasil sobre o tema - relembra os quase 30 anos de contribuições feministas ao campo das RI e pretende apresentar um estado da arte, com textos de pesquisadoras, pesquisadores, profissionais e ativistas a fim de documentar quais são os rumos, as vertentes e as inovações no campo.

Há 30 anos, as publicações da área eram restritas ao universo e às representações masculinas. Com o florescimento dos feminismos nas RI, é possível identificar uma diversidade de autoras e análises que respondem às perguntas feitas por Tickner, indicando que, sim, as mulheres fazem política e que as relações pessoais, públicas e internacionais são emaranhadas pelas construções de gênero. Nas palavras de C. Enloe (2000): “o gênero faz o mundo girar”.

Apesar dos avanços, a necessidade de ampliar os sentidos da política internacional e desestabilizar noções hegemônicas e opressoras segue atual. Se no âmbito das Ciências Sociais e Humanas, em diálogo com a realidade social e a luta política, a primeira onda feminista começa a se constituir no fim do século XIX, no campo das RI o debate sobre gênero toma corpo somente a partir dos anos 1980 – quando proliferam as análises da chamada primeira geração de feministas em RI.

O Feminismo nas RI é um corpo heterogêneo com distintas epistemologias, ontologias, metodologias e normatividades. O que o identifica é a centralidade do gênero em suas análises e a construção de linguagens próprias para capturar fenômenos invisibilizados por outras vertentes da área. É possível visualizar os feminismos a partir de muitos prismas teóricos como o Feminismo Construtivista, o Feminismo Crítico, o Feminismo Liberal, o Feminismo Pós-Estruturalista, o Feminismo Pós-colonial e o Feminismo Decolonial.

É preciso destacar, no entanto, que há uma linha tênue entre “questões feministas em RI” e “perguntas de RI no feminismo ou em outros campos” (SYLVESTER, 2004, p.13). São diversos os caminhos escolhidos pelas feministas e muitas feministas transitam entre ambos os lados. Entre as que optaram por incorporar estudar as vidas das mulheres em programas de pesquisa em RI, existem algumas que optaram por se despirem do feminismo (WEBER, 1999) e aquelas que preferem não ser comprimidas em um rótulo, uma vez que se preocupam em compreender o mundo da vida, para além de fatiá-lo em objetos de estudos próprios de uma disciplina ou outra.

Nesse contexto, o Dossiê FEMINISMOS, GÊNERO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS visa acessar e difundir a diversidade de olhares e locais de fala, indo além das abordagens tradicionais no campo das RI. Para tanto espera-se receber reflexões acadêmicas e também ativistas, de modo a promover a interação entre o mundo da vida, as múltiplas formas de saber e as distintas áreas do conhecimento científico. O dossiê reunirá construções inéditas que contribuam de maneira original para o campo. Assim, além das abordagens tradicionais nas RI, são bem-vindas contribuições sobre temas emergentes e que dialoguem com outros campos do conhecimento.

Os textos serão recebidos até 24 de Abril de 2017.

A equipe editorial solicita que os autores e autoras, ao submeterem seus textos, não deixem de cadastrar no sistema o título em inglês e o respectivo abstract do artigo.

 

Organizadoras:

Profa. Tchella Fernandes Maso (UFGD)

Sarah de Freitas Reis (UnB).

 

Referências:

ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches, and Bases: making feminist sense of International Relations. Berkeley: University of California Press, 2000.

SYLVESTER, Christine. Feminist International Relations: an unfinished journey. Cambridge University Press, 2004.

TICKNER, J. Ann. Gender in International Relations: feminist perspectives on achieving global security. New York: Columbia University Press, 1992.

WEBER, Cynthia. IR: The Resurrection of New Frontiers of Incorporation. European Journal of International Relations, Vol. 5, nº 4, 1999, ps. 435–450; p. 436.