As ocupações do Movimento Olga Benário e a Desobediência Civil Feminista

Amanda Carolina Cegatti

Resumo


Desde 2016, militantes do Movimento Olga Benário ocuparam três residências inabitadas em diferentes cidades e as transformaram em Casas de Referência para Mulheres em situação de violência. A primeira delas, a Casa Tina Martins (Belo Horizonte/MG), se inicia com o intuito de pressionar os governantes a tomar parte na responsabilidade de proteção às mulheres e, posteriormente, soma-se à rede de enfrentamento à violência já existente. Inspiradas nesta ação, as outras duas ocupações, Mulheres Mirabal (Porto Alegre/RS) e Helenira Preta (Mauá/SP), surgem com a finalidade de oferecer um espaço de abrigamento às mulheres, além de buscar pressionar o Estado. Considerando que estes parecem ser os objetivos principais do movimento, e não o de contestar a legalidade da propriedade a partir da ocupação dos imóveis, pretende-se identificar se as militantes consideram suas ações como desobediência civil e com o a justificam. Com o aporte dos estudos sobre movimentos feministas e desobediência civil, busca-se compreender as motivações subjacentes à atuação do Movimento e das respectivas ocupações, bem como seus objetivos mais abrangentes; paralelamente, procura-se identificar a interlocução do Movimento com as diferentes vertentes feministas. As informações foram obtidas em entrevistas com as lideranças do Olga Benário e das ocupações, e no site do Movimento e das Casas, o que permitiu identificar o fim último da organização, bem como os valores feministas que orientam as suas ações.


Palavras-chave


Movimento Olga Benário. Desobediência Civil. Feminismos.

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DOI: https://doi.org/10.30612/mvt.v6i10.9294

ISSN Eletrônico: 2358-9205

 

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